O livro reúne produções de angolanos, caboverdianos, moçambicanos, guineenses e são-tomenses e, por isso, não se admite a ausência de poetas da Casamansa porque o crioulo que se fala na província senegalesa, apesar de todo o esforço de Dakar para sufocar o que há de sobrevivência lusófona, é o mesmo da Guiné-Bissau. É um crioulo que os caboverdianos também entendem. E que, portanto, sempre esteve apto a produzir aquela poesia de fronteira, a que se refere Costa e Silva, que nasceu do amancebamento de séculos da língua portuguesa com idiomas africanos.
Não esqueçamos, portanto, que, de mais de quatro séculos da presença do europeu naquela região da África, três séculos e meio foram de domínio português e apenas 80 anos de francês, desde 1895, quando um governo luso enfraquecido teve de aceitar que a Casamansa passasse para a órbita francófona. Mas é sob o ideário dos valores lusófonos que a região, há mais de 20 anos, trava uma luta de independência, com a esperança de que, um dia, também a Casamansa, como Timor Leste, possa aderir à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Se os governos de Portugal e do Brasil, por interesses diplomáticos e econômicos, preferem omitir-se quanto ao problema, os nossos povos são livres para estender a sua solidariedade.
É possível argumentar que a Casamansa não é país independente, mas, até menos de um quarto de século atrás, as demais nações contempladas também não o eram. E, no entanto, os organizadores da antologia, ao discriminar nomes de poetas que, ao longo de muitos anos, se perfilaram como estandartes de toda uma geração de poetas africanos, entre os de Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Mário de Andrade, Pablo Neruda, Nicolás Guillén, Langston Hughes e Aimé Césaire, incluem o de Leopold Senghor (1906-2001), ex-presidente do Senegal e luso-descendente cuja região natal era a Casamansa, um dos líderes do movimento poético Negritude de caráter anticolonialista.
Hão-de argumentar que Senghor escreveu poesia em francês e que, como político, fundou em 1947 o Bloco Democrático Senegalês , que se opôs ao Movimento das Forças Democráticas da Casamansa (MFDC), que hoje luta pela independência. Mas esta é outra questão. Em Lisboa, não seria difícil encontrar universitários da Casamansa bolsistas do governo português capazes de oferecer poemas de seus compatriotas.
Mas a isso nada se referem os organizadores da antologia, talvez com receio de acordar questões esquecidas, mas não desaparecidas. Sendo dois dos organizadores (Barbeitos e Maria Alexandre Dáskalos) angolanos e um terceiro (Livia Apa, nascida em Nápoles), mestre em literaturas e culturas dos países africanos de língua oficial portuguesa, por desconhecimento (ou por falta de material de trabalho) é que não foi.
Afora este reparo, a antologia reúne boa parte da produção dos principais poetas dos países escolhidos sob critérios estéticos, deixando de lado questões de ordem racial. Assim é que o leitor pode encontrar versos de poetas do século XIX, como o angolano Maia Ferreira, mestiço claro passando por branco, que acabou por morrer no Rio de Janeiro, onde se exilara, seguindo um caminho semelhante ao de Eusébio de Queirós, que chegou a ministro de D. Pedro II, ou o moçambicano Campos Oliveira, de provável ascendência goesa, nascido na Ilha de de Moçambique, que, no Novo Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro, de 1888, publicou “uns versos inéditos” de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) escritos em África.
E pode encontrar também poemas das vozes mais representativas da África de língua portuguesa de hoje, como os versos da angolana Ana Paula Tavares em “November without water”:Olha-me p´ra estas crianças de vidro/ cheias de água até às lágrimas/ enchendo a cidade de estilhaços/ procurando a vida/ nos caixotes do lixo./ Olha-me estas crianças/ transporte/ animais de carga sobre os dias/ percorrendo a cidade até os bordos/ carregam a morte sobre os ombros/ despejam-se sobre o espaço/ enchendo a cidade de estilhaços.
Entre os poetas nascidos em meados do século XX, se, a princípio, a luta contra o colonialismo os uniu, hoje, como se vê nos versos de Ana Paula Tavares, o que os motiva é não só a miséria de seu povo, herdeiro de um império de pobres que não lhe trouxe os avanços do capitalismo, mas também os erros cometidos por aqueles que sonhavam e entendiam que bastava a liberdade para levar seus países a um destino melhor. David Hopffer C. Almada, de Cabo Verde, canta o fim dessa miragem em “Sonho”: A miragem desfez-se/ em sobressalto/ aquele enorme estandarte rubro/ desfez-se em nada/ toda a minha alegria/ esfumou-se em vento/ duas fartas lágrimas/ lavraram minhas faces/ todo eu tremi desesperado./ É que na verdade/ a miragem a alegria o estandarte/ tudo isso era mentira/ fora um sonho.
Mas aqui houve um lapso por parte dos organizadores da antologia porque a grande voz de Cabo Verde é José Luís Hopffer C. Almada, irmão de David, que não consta do livro. David, advogado por formação, embora ligado às letras caboverdianas, não se considera poeta, até porque fez uma incursão absolutamente pontual pela poesia.
Entre os poetas moçambicanos, a sensibilidade para captar as ruínas de um mundo extinto é acompanhada por igual capacidade de enfrentar o novo mundo que também é opresso porque a miséria e a fome são circundantes, como se pode constatar em tantos poemas do falecido José Craveirinha (1922-2003) e Virgílio de Lemos, poetas da geração mais antiga, ou Nelson Saúte e Eduardo White, da mais recente. É o que se pôde ver nestes versos de White: Diário é também/ o ofício da morte neste país,/ essa gangrena de fome e de sede/ e de desentendimento./ E se o fogo em círculo, que nos cerca,/ lembra nossas quotidianas invulgaridades,/ cada noite aqui iluminada/ pela determinada vigília dos soldados,/ pela boca ácida dos seus fuzis,/ é a gente que ama/ nos nervos de qualquer cama/ nossos amores sagrados.
Poeta da geração que está agora chegando aos 50 anos de idade, Helder Proença, de Guiné-Bissau, também faz sua poesia de reminiscências de um tempo em que se anunciava o futuro, como nestes versos de “Não posso adiar a palavra” que não escondem a influência do triunfalismo de Pablo Neruda: Quanto te propus/ um amanhecer diferente/ a terra ainda fervia em lavas/ e os homens ainda eram bestas ferozes / Quando te propus/ a conquista do futuro/ vazias eram as mãos/ negras como breu o silêncio da resposta/ Quando te propus/ o acumular de forças/ o sangue nómada e igual/ coagulava em todos os cárceres/ em toda a terra/ e em todos os homens/ Quando te propus/ um amanhecer diferente, amor/ a eternidade voraz das nossas dores/ era igual a “Deus Pai todo-poderoso criador dos céus e da terra”/ Quando te propus/ olhos secos, pés na terra, e convicção firme/ surdos eram os céus e a terra/ receptivos as balas e punhais/ as amoldiçoavam cada existência nossa/ Quando te propus/ abraçar a história, amor/ tantas foram as esperanças comidas/ insondável a fé forjada/ no extenso breu de canto e morte/ Foi assim que te propus/ no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu/ o hastear eterno do nosso sangue/ para um amanhecer diferente!
Na poesia são-tomense de Tomás Medeiros, 73 anos, poeta ainda sem livro publicado e com poemas espalhados por antologias, jornais e revistas, atrai a homenagem que faz a Nicolás Guillén, inspirando-se no poema “Negro Bembón” em que o cubano procurou tirar do negro um certo complexo de feiúra imposto pelo branco, assumindo como naturalmente bem feito e bonito o que, de acordo com os padrões greco-latinos de beleza, seria feio como o beiço grande e o nariz achatado.
Em “Socopé para Nicolás Guillén”, Medeiros trava com o poeta cubano um diálogo em as palavras têm um valor por seu ritmo, especialmente o estribilho que funciona como se fosse o som de um atabaque, um som africano: Conheces tu/ Nicolás Guillén/ a ilha do nome santo?/ Não? Tu não conheces?/ A ilha dos cafezais floridos/ e dos cacaueiros balançando/ como mamas de mulher virgem?/ Bembom, Nicolás Guillén/ Nicolás Guillén., bembom./ Tu não conheces a ilha mestiça,/ dos filhos sem pais/ que as negras da ilha passeiam na rua?/ Tu não conheces a ilha-riqueza/ onde a miséria caminha/ nos passos da gente?/ Bembom., Nicolás Guillén/ Nicolás Guillén, bembom./ Oh! Vem ver a minha ilha;/ vem ver cá de cima,/ da nossa Sierra Maestra./ Vem ver com a vontade toda,/ na cova da mão cheia./ Aqui não há ianques, Nicolás Guillén,/ nem os ritmos sangrentos dos teus canaviais./ Aqui ninguém fala de yes,/ nem fuma charuto ou/ tabaco estrangeiro./ (Qu´importa. Nicolás Guillén,/ Nicolás Guillén, qu´importa?)/ Conoces tu/ La isla del Golfo?/ Bembom, bembom,/ Nicolás, bembom.
Além dos nomes citados, fazem parte do livro, entre outros, Arménio Vieira e Vera Duarte, de Cabo Verde, David Mestre (1948-1998), João Maimona, Arlindo Barbeitos e Maria Alexandre Dáskolos, de Angola, e Rui Knopfli (1932-1998) e Luís Carlos Patraquim, de Moçambique, que também representam a moderna poesia africana de língua portuguesa, embora a antologia, como toda seleção, possa ter deixado de fora alguém de valor.
Como observam os organizadores, ainda que se verifique na maioria dos autores uma visível continuidade do compromisso político e, às vezes, poesias de circunstâncias mais condizentes com programa revolucionário, já começam a surgir “vozes dissonantes de um intimismo crescente”, em meio ao desencanto que adveio do fracasso administrativo do governo em alguns países ou mesmo dos horrores de rebeliões alimentadas pelas contingências da Guerra Fria e, depois, apenas pela cobiça de grupos nacionais insuflados por interesses estrangeiros. Por isso, muitos destes versos cantam a transformação do sonho da independência no pesadelo das guerras civis, da miséria dos mutilados.
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POESIA AFRICANA DE LÍNGUA PORTUGUESA (antologia), de Lívia Apa, Arlindo Barbeitos e Maria Alexandre Dáskalos, com introdução de Alberto da Costa e Silva. Rio de Janeiro, Lacerda Editores e Academia Brasileira de Letras, 304 págs., 2003.
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Adelto Gonçalves