Rezende cita Franz Fannon (médico e pensador anticolonial, nascido na ilha de Martinica e filho de um casal de classe média franceses) ao defender a unidade na luta. “Na nossa incapacidade de discernir quem são os nossos inimigos acabamos muitas vezes atirando para dentro do quartel”.
Ele também não poupa certas lideranças negras. “Foram contaminados por cargos, por negociatas rasteiras, por ideologias da branquitude, por uma titularidade acadêmica, ou um empreguinho a qualquer custo, negociando irmãos e chegando a situação do descalabro, do ridículo”.
Veja, na íntegra, a entrevista
Afropress – Na condição de dirigente do CEN – Coletivo de Entidades Negras -, como avalia o atual momento da luta contra o racismo e pela igualdade no Brasil?
Marcos Rezende – Avalio que a luta par parte das Entidades e pessoas do Movimento negro tem aumentado. Tem existido uma mudança dos paradigmas de ser negro no Brasil e das formas de enfrentamento também.
Nós, do movimento negro, caminhamos bastante, passamos um tempo lutando para derrubar o mito da democracia racial, daí passamos por um período das denúncias ao fato do que significava ser negro no Brasil, depois ultrapassamos a momento do denuncismo e passamos a ser propositivos e finalmente estamos agora cobrando do Estado Brasileiro que aplique tudo o que já propusemos, e mais do que isto, que este mesmo Estado através dos seus mais diversos institutos de pesquisa já reconheceu como fruto real do racismo existente no Brasil. Por isto é o momento da Reparação Histórica para com os Negros e as negras deste país.
Entretanto, os últimos 6 meses do novo governo Lula me causa estranhamento, pois parece que existe um movimento dentro do governo para descaracterizar as ações que estavam sendo alavancadas. E isto é facilmente perceptível até mesmo na nova configuração do Governo Lula, mas para além disto, percebemos o recrudescimento no MEC através da SESU (Secretaria de Ensino Superior) e da SECAD. Não que lá as ações da última gestão fôssem às mil maravilhas, pois de fato tinha muito confete e pouca efetividade, mas pelo fato de agora faltar até mesmo o básico.
E isto podemos notar também na Secretária de Direitos Humanos, onde não se tem uma reunião do Conselho Nacional de Combate a Discriminação (CNCD) há pelo menos 6 meses. E onde o Subsecretário Perly Cipriano coloca para todos sem nenhum constrangimento que o CNCD deveria ser extinto pelo simples fato de existir a SEPPIR para tratar disto. Ou seja, parece que a SEPPIR tem todas as condições necessárias para resolver a diversidade de problemas a que expuseram a população negra ao longo de séculos, quando na verdade a função da mesma é transversalizar.
São apenas dois exemplos. E fazer transversalidade não é algo que se faz quando apenas uma parte quer. Então é necessário o Governo Lula entender que é um governo do povo e que o povo deste país é em sua maioria nos Estados que garantiram a sua eleição, que foi aqui na Região Nordeste, um povo NEGRO. Negro em sua maioria. E que o próprio Presidente se comprometa com a causa e cumpra alguns diálogos que teve com representantes da comunidade negra, tanto na Marcha Zumbi + 10, quando garantiu uma ampla Campanha em Respeito a Diversidade Religiosa, como na CIAD quando garantiu unidade no discurso do Ministro da Educação Fernando Haddad com o da Ministra Matilde Ribeiro a respeito do governo Lula ser favorável às cotas. Nos dois momentos eu estive presente nas comissões de diálogo e em nenhum dos dois momentos houve um cumprimento das promessas.
Afropress – Como está vendo e de que modo participando das articulações pela realização do Congresso de Negros e Negras do Brasil?
Rezende – Percebo que o CONNEB é uma possibilidade histórica de se construir o Projeto Político do povo negro para o Brasil. Como afirmei na resposta anterior já temos todas as bases lançadas e as condições necessárias para a criação deste momento. E este é um momento singular para a comunidade negra. A partir do CONNEB podemos ter um projeto amplamente difundido e contando com a participação das bases, desvinculando assim a idéia de que o movimento negro é um Movimento burguês. Daí não me intimida se os intelectuais negros academicistas e que ao longo do processo foram se distanciando das bases legítimas do povo não participem, assim como o silêncio de algumas ONG’s de negras. Sabemos que é uma perda, não é o que desejamos, e reconhecemos a importância histórica destes atores, mas assim é o tempo e a história, e no frigir dos ovos ficará nítido quem deseja caminhar com as massas, com a plebe, a canalha e sem as intervenções diretas do governo ou dos partidos políticos que ao longo da história acabaram sendo mais próximos a nós como é o caso do PT e do PC do B, devido inclusive aos seus discursos e aproximação com o proletariado (que em sua maioria na parte maior e embaixo da pirâmide é negro), mas que na prática quando assumiram o poder acabaram deixando de lado as proposições dos pretos e das pretas deste país.
Acredito que o CONNEB pode criar um ambiente mais propício com um projeto empreendedor para a comunidade negra podendo gerar no futuro uma estrutura moderna que possa dialogar com os órgãos políticos governamentais e internacionais, assim como esta estrutura poderá, quiçá, pensar em constituir um partido voltado para a formulação dos ideais revolucionários includentes neste país.
Afropress – A tentativa de alguns grupos de monopolizarem o Congresso, pretendendo assumir a hegemonia, antes mesmo que o mesmo ocorra, não prejudicam o esforço feito por muitos de, realmente, construir um espaço de unidade do povo negro no Brasil?
Rezende – Sinceramente, Dojival, isto é algo que eu ainda tento compreender e não consigo. Entendo que existe uma vaidade no eixo sul e sudeste que acaba prejudicando a nossa própria luta. É como se tudo tivesse que passar por aí e sempre este eixo ter o maior peso para as coisas acontecerem de fato.
É muito importante salientar a importância no Nordeste na formulação das mais ampliadas frentes de ação para tratar das questões raciais neste país e isto lembrando a história para não ser tratado pelos menos escrupulosos de bairrista. Desde o número significativo de quilombos, a exemplo de Palmares, assim como as principais revoltas como a dos malês e da Conjuração Baiana (Revolta dos Búzios) aos principais elementos estruturantes de resistência espiritual e material negra deste país, como são os terreiros de Candomblé (o Terreiro de Oxumarê com seus mais de 150 anos de história, prisões e resistência até o tombamento) e as irmandades, como a do Rosário dos Pretos, Sociedade Protetora dos Desvalidos dentre outras.
Então digo como membro da Coordenação Executiva Nacional que o espaço está aberto e para ser ocupado com quem deseja e luta para tal.
Mas ainda assim parece que aqui é possível se dialogar com mais respeito entre as partes. Claro que sempre vai ter reclamações, impossível ser diferente, nem mesmo Oxalá agradou a todos, mas quando se participa aqui em Salvador e no Estado da Bahia se tem voz ativa e respeitada. O que não vale é ficar se lamuriando se não ajuda a construir.
Afropress – Por que a dificuldade de alguns grupos de entenderem de que a unidade só se dará na luta concreta, já que o Movimento Negro brasileiro foi, é e continuará sendo, essencialmente plural?
Rezende – Realmente esta luta concreta é que muitas vezes fica distante. Percebo que no Movimento Negro atual tem muito por incrível que pareça de hi-tech. Parece uma fala esquizofrênica, mas quando comparo o MST ao Movimento Negro eu percebo que somos muito mais tecnológicos e burgueses do que eles e que não chegamos nas massas como deveríamos e muitas vezes quando isto acontece parece algo lúdico, sem uma formação política contagiante e abrangente. Daí como não avançamos nesta empreitada e percorremos muitas das vezes os mesmos circuitos ficamos, ao que parece, competindo entre nós. E sigo citando Franz Fannon que dizia que na nossa incapacidade de discernir quem são os nossos inimigos acabamos muitas vezes atirando para dento do próprio quartel. Acho que é isto que acontece com muitos dos nossos. Foram contaminados por cargos, por negociatas rasteiras, por ideologias da branquitude, por uma titularidade acadêmica, ou um empreguinho a qualquer custo, negociando irmãos e chegando a situação do descalabro, do ridículo.
São seres que muitas vezes a juventude tem vergonha de seguir. São dinossauros que deveriam ter sido extintos e como não foram ficam procurando a pouca comida que resta, quando, na verdade, se tem novos espaços de civilização que podem e devem ser tomados.
Penso que devemos ocupar espaços, mas não podemos negociar alguns valores e posições que são inegociáveis. Não é necessário sobreviver a qualquer custo, e sim viver com dignidade.
Afropress – O Movimento Negro na Bahia, ao que parece, tem pelo menos três articulações principais – o Olodum, o Ilê e a CEN. Quais são as divergências que o CEN tem em relação ao Fórum de Entidades Negras e, especialmente, em relação à algumas lideranças como João Jorge, do Olodum? E em relação ao Ilê, de Vovô. Tem havido unidade? Há possibilidades de unidade?
Rezende – Difícil, muito difícil. Temos pontos muito divergentes. Na verdade o Ilê Aiyê, assim como o Olodum, e outras entidades conhecidas como maiores e históricas do Movimento Negro há alguns anos atrás se reuniram no que denominaram de Fórum de Entidades Negras. Na verdade são apenas 13 Entidades, são não, eram pois o MNU se desvinculou conforme informe do coordenador nacional da Entidade Marcus Mawusí.
Esta é a questão, fecharam um grupo que, é até risível dizer, de elite entre os negros e deixaram os que deveriam ser os irmãos e irmãs de fora. E mesmo com a solicitação de várias entidades para fazerem parte do Fórum eles sempre negaram afirmando que o espaço era fechado. Bem, isto é um direito deles, o que não é correto é a sociedade brasileira não saber que este Fórum não é um fórum aberto da sociedade negra baiana que discute o racismo, mas é uma entidade (que se constitui como uma ONG) guarda-chuva que abriga as maiores, inclusive os Filhos de Gandhy que há muito esteve vinculado ao Carlismo, assim como o Ilê Ayie durante um período.
Não dá, então, para fazer um discurso inclusivo se na verdade excluem; isto é mentira e hipocrisia e é isto, dentre outras coisas, que fez surgir o CEN (Coletivo de Entidades Negras). Hoje nós do CEN temos filiadas mais de 170 entidades negras no Estado da Bahia e estamos em 17 municípios baianos e em 8 Estados do Brasil. Priorizamos, principalmente, o nordeste por entender o quanto estas Entidades ficaram de fora do processo. Foram tratados como um movimento negro de segunda classe.
A Bahia foi o local de onde partiu a idéia e temos um grande coeficiente social e estamos nas mais diversas frentes de batalha do cotidiano, e não nos eventos midiáticos e bem comportados. Para além da Bahia estamos no Piauí, Belém, Amapá, Pernambuco, Maranhão, Rio de janeiro e São Paulo.
Acreditamos que existe um acúmulo no Movimento Negro no norte do país que poucos conhecem devido a distância dos centros de informação, assim como pela falta de interesse de se saber sobre a quantas andam as coisas nestes Estados. Então partimos para aglutinar estes núcleos e coletar informações sobre a luta assim como criar pontos de apoio e visibilidade para os nossos irmãos negros e nossas irmãs negras que acabam não sendo visibilizados como deveriam. Daí a importância também de se percorrer o Maranhão do guerreiro Lamar, que é do MHHOB ( Mov. Hip- Hop Organizado brasileiro), o Piauí da Laura e do Gilsão do Mucambo com suas estampas de altíssimas qualidade, tecnologia de ponta para jovens negros, assim como ações concretas de discussão racial nos bairros periféricos da cidade, o Michel com o povo do Hip-hop da Floresta em Belém do Pará, o Poca e a Juventude Afro-Amapaense, a Lindacy com o Teatro de Rua de Recife, a Comunidade de Passarinho e a Trilha do Ingá. Estes são apenas alguns exemplos que precisamos conhecer mais e valorizar melhor. Pois são quilombolas que fazem a luta na periferia do Brasil, e este é o olhar colonizado do Movimento Negro brasileiro (que sem perceber acaba desconsiderando importantes contribuições dos (as) nossos (as).
Pessoas e Entidades que fazem a mesma luta que nós, só que com um agravante, não tem visibilidade ou o olhar de veículos sérios como este para divulgar as suas ações e assim amplificá-las. Agora através do CEN queremos garantir também espaços para que eles pautem as suas ações e tenho certeza, meu nobre que você, assim como os diversos leitores deste site importante ficarão maravilhados com as informações locais a que terão acesso.
Fazem parte da nossa entidade grupos de Hip-Hop, Terreiros de candomblé tombados pelo patrimônio e com mais de 100 anos de história, núcleos de estudantes cotistas universitários, Afoxés, Maracatus, Blocos Afros, homossexuais, de Gênero, enfim a diversidade do movimento negro. Temos alinhamento e somos uma entidade aberta. Sem vinculações partidárias e com total independência.
Este é o nosso capital social, seguindo a linha de Bordieu, temos capilaridade e ações concretas dentro das comunidades. É difícil por exemplo pensar em um bairro popular da cidade de Salvador hoje que eu não posso te informar da existência de uma Entidade filiada ao CEN. Para mim isto é um processo includente, e falamos para fora das antigas fronteiras do movimento negro. Ajudamos a ampliá-la e é isto que estamos desejando fazer com as ramificações nos diversos Estados. Entretanto, respeitamos as peculiaridades e o tempo de cada um.
Ocupamos espaços e fazemos ações de rua, mas muito mais do que isto fazemos formação nas comunidades. Não é só o oba-oba nas ruas, mas qualificação no discurso, nas atitudes. Rompemos com o populismo de alguns. E somos mais do que tranças e beleza negra. Isto é inato, é natural para nós que somos de uma outra geração e agradecemos aos antigos pela história, mas sabemos valorizar a juventude e inserimos sangue novo e fervente nas lutas. Oxigenamos o movimento. No meio dos Tiranossauros Rex surgiram os Velociraptors (mais leves e ágeis) que trabalham em grupo e são menos individualistas e muito mais coletivos.
Afropress – O que aconteceu exatamente no carnaval deste ano, que opôs as três entidades principais representativas do Movimento Negro baiano?
Rezende – É justamente a continuidade do que dizia acima. No CEN nós temos 46 entidades que fazem carnaval. São quarenta e seis. Sendo que muitas como o Olorum baba Mi com 28 anos de existência serviu de escola para muito Olodum da vida, mas que ficou alijada no processo. Então buscamos reinserir estas Entidades na busca por recursos para fazer o carnaval com dignidade. Existe uma péssima distribuição de recursos no carnaval de Salvador. E como os recursos não se ampliam, as que recebiam mais não aceitavam ter
Imagine que enquanto algumas Entidades recebiam míseros R$ 1.400,00 (Hum mil e quatrocentos reais) em 2 parcelas de setecentos reais outras recebiam R$ 110.000,00 (cento e dez mil), R$ 140.000,00 (cento e quarenta mil) e ainda vendiam e vendem fantasias. Não acho que os valores destas entidades deva ser retirado, mas não dá para ficar fazendo um discurso de irmandade negra se não tem disposição de ampliar a luta. Nos terreiros de candomblé este ditado de farinha pouca meu pirão primeiro não funciona. Farinha pouca se coloca água, faz um pirão ou mingau de cachorro e a gente toma junto.
Então a briga no carnaval é que tem Entidades que querem ser incluídas no processo e outras “irmãs” que não baixam a guarda e alguém tinha que anunciar isto. É necessário se rebelar e acabar com esta hipocrisia velada que existe entre nós, onde todo mundo sabe e ninguém comenta. Eu comento e não me intimido.
Não tenho débitos nem acordos com ninguém. Queremos que todos tenham acesso e esta é uma das nossas bandeiras. Temos que partir daí, agora não dá para se fazer reunião conjunta com Zulu Araújo (representando a Fundação Cultural Palmares e o Ministério da Cultura), o Fórum de Entidades Negras e a UNESAMBA, e na hora o dinheiro só chegar para o Fórum de Entidades Negras e todo mundo ficar calado e o movimento negro não falar nada porque são entidades históricas. Não se avança no debate sem a verdade. É a ela que buscamos. As nossas entidades não recebem nenhum tipo de aporte de ninguém durante todo o ano. Em contrapartida O Ilê tem o apoio da Petrobrás, Governo do Estado da Bahia, Brahma, Claro e do Extra. O Olodum tem apoio da Petrobrás, que é uma empresa estatal e que o apoio não se dá através de edital mais de relações institucionais. Então ou é para todos ou para ninguém, ou que ao menos se saiba dividir. Sou pela verdade e contra a hipocrisia.
Afropress – Como vê a mobilização desencadeada pelo Movimento Brasil Afirmativo, em S. Paulo, e agora reunida em torno do Fórum SP da Igualdade Racial, com a participação da Rede Educafro, Instituto do Negro Padre Batista e outras entidades que estão se aglutinando para pressionar o Congresso?
Rezende – Acho importante. Mas acredito que este Fórum, com a qualidade que tem os seus integrantes, deve também está discutindo se vale a pena a aprovação do Estatuto da igualdade racial do jeito que está, empacado, engessado e com um atraso de mais de 10 anos. Não compactuo com a retirada do Estatuto de pauta, mas também acredito que da maneira que esta se tentando viabilizar o Estatuto é muito difícil que nos traga Reparação como deveria ser. Então tenho certeza que o Congresso Nacional de Negros e Negras é um excelente espaço coletivo para se discutir sobre a importância de permanência ou de retirado do Estatuto da Igualdade Racial.
Afropress – Você não acha um equívoco o MNU de S. Paulo propor a retirada do Estatuto da Igualdade Racial, sob o argumento de que não atende mais as reivindicações do povo negro? E a postura das demais entidades, como CONEN e Unegro, que passaram a não priorizar nas suas mobilizações, a pressão sob o Congresso para aprovar o Estatuto e o PL 73/99?
Rezende – Dojival, este Estatuto eu li e reli inúmeras vezes e o coeficiente é o mesmo, existe um déficit histórico do momento da sua concepção e na trajetória até os dias atuais. Não que eu seja contra o Estatuto, mas ele carece de inovações em alguns aspectos. É como se voltássemos no tempo para observar as diversas leis e respeito da questão racial no período que antecede ao fim legal da escravidão. Do que serviram aquelas leis para além de nos trazer prejuízos? Para além de engabelar o nosso povo. O Estatuto pode continuar a ser uma luta válida, se para tal for acrescida algumas questões primordiais para o povo negro na atualidade e isto eu já tinha colocado na resposta acima.
Sou a favor dele, mas agora tem que se ter um novo debate na sociedade antes de pautá-lo e deixá-lo a mercê dos famosos vetos de uma Câmara de Deputados e de um Senado composto por não-negros e disposto, na sua maioria, a continuar nos prejudicando a qualquer custo.
Afropress – Não é um contra-senso que, ao mesmo tempo em que se abandone a defesa do Estatuto, se proponha emendas de reparação que serão encaminhadas ao próprio Congresso, onde a correlação de forças nunca nos foi favorável?
Rezende – Não enxergo assim. Não como um contra-senso, mas é como acreditar em histórias infantis, ainda com o agravante que a fada madrinha branca acene com a varinha de condão em nossa direção, ou que Branca de Neve nos seja salutar. A única coisa que o Congresso tem destas histórias encantadas são os antigos anões. Ou os atuais que agora contam com outros apoiadores.
Afropress – Qual a sua posição, afinal, em relação ao Estatuto da Igualdade e ao PL 73/99?
Rezende – Entre diversos outros fatores cabe relembrar logo de início que das mais de 50 Universidades Federais apenas 12 instituíram o sistema de cotas. Isto mostra o quanto fazemos parte de uma sociedade que, através de seus representantes nos mais diversos locais, estabelecem o que costumamos chamar de racismo institucional. Como este Estado pode ser democrático de direito se não trata de forma diferente aqueles que ao longo da história foram colocados em uma situação de adversidade?
É por conta disto que o PL Cotas é de suma importância e com os resultados já obtidos e referendados positivamente por análises concretas dos alunos cotistas dos mais diversos cursos nas Universidades que implementaram o sistema de Cotas que já podemos municiar o quanto não existe desnível entre cotistas e não cotistas, fator este que coloca por terra toda a idéia de meritocracia.
E mais do que isto, com o passar do tempo nós do CEN aqui na Bahia, juntamente com outras Entidades de Movimento Negro fizemos um Seminário para discutir as Universidades e daí fizemos uma Caminhada no dia 17 de agosto e, então, através de pressão popular tomamos a UFBA de assalto e o Reitor viu-se obrigado a abrir uma discussão sobre permanência, cotas na pós-graduação, inserção da Lei 10.639/03 no Ensino Superior, dentre outras ações.
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
Rezende -Parabenizo este veículo de comunicação que é vital para os afrodescendentes deste país e que auxilia na integração das informações raciais mais diversas em vários Estados.
Acredito que é do discurso qualificado que o Movimento Negro produziu ao longo de décadas sobre ao mais diversos temas, aliado a um novo momento que é a retomada das ações concretas dentro das comunidades, mas como dizia Fannon se utilizando das linguagens da própria comunidade descolonizando assim o seu conhecimento, é que fará acontecer a mudança e a ampliação de quadros do Movimento, fazendo inclusive surgir núcleos com um grau de radicalismo maior caso seja necessário e popularizando a luta racial. É isto que o CEN vem propor. E por isto incomodamos aqueles de discurso individualista (self made men) e que vivem da mesmice. A nossa base político-filosófica vem dos Quilombos e dos Terreiros de Candomblé. Sabemos que nestes espaços dividir significa multiplicar e fortalecer corpo, mente e alma.
Que os Orixás iluminem a todos. Axé!

Entrevista concedida por Marcos Rezende ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.