Rio – A historiadora e pesquisadora de Relações Raciais, Wania Sant’Anna, do Rio,
disse, ao comentar a participação da Educafro nas negociações que resultaram na proposta do MEC de adotar as cotas gradualmente no prazo de seis anos, que o Frei David, diretor executivo da Educafro, não tem o direito de “fazer negociações dessa natureza”. “O Frei está errado, a Educafro está errada e não vamos nos esquecer de um fato importante: por todo o país, diversos grupos, têm discutido novas formas de ingresso nas universidades públicas e esses grupos devem, sim, ter o direito de se manifestar”, afirmou.
Wania considerou a proposta do MEC um retrocesso. “Os tais seis anos são um desestimulo, um desrespeito, uma desmobilização dos esforços empreendidos até agora. Chega de manipulação, chega de auto vangloriar a sua prática esculhambando a prática dos demais”, acrescentou.
Veja, na íntegra, a entrevista:
Afropress – Como você viu as manifestações do Frei David a respeito das negociações envolvendo com o MEC a Andifes, a UNE, UBES e O MSU?
Wania Sant’Anna – Eu vou responder ao Frei David. Está mais do que transparente o fato de a Educafro não ser a organização, isoladamente, a tratar deste assunto. Uma coisa é a UNE – com seus processos, não entro no mérito, de eleição e representação. A outra coisa é uma organização não governamental com base política no eixo Rio-Brasília cuidar sozinha de um assunto que interessa a população afro-brasileira.
Afropress – A Educafro, ao participar da reunião, não estava representando as entidades negras?
Wania – Eu não admito esse tipo de comportamento, especialmente neste assunto. Está muito claro que a Educafro não tem poder de convocação, se tivesse participado da Marcha – qualquer uma das duas, a conversa poderia ter se dado em outro nível. Isso não é ciúme, isso é política, capacidade de fazer alianças e rompê-las quando for necessária – isso ocorreu na Marcha em ação, de fato, transparente. Mas é a arrogância, a prepotência da hierarquia católica que produz esse tipo de comportamento.
Afropress – Como você acha que essa discussão deveria ter sido encaminhada?
Wania– Se temos um assunto a ser tratado no Congresso Nacional, e esse é o ponto, precisamos de ações articuladas com esse ator e não me diga que isso pode ou deva ser feito com mobilização de cartas a parlamentares. Carta a parlamentares funcionada quando se tem uma proposta acordada em outro grupo.
Afropress – E quanto ao veto ao deputado Luiz Alberto de participar da reunião em que foi anunciada pelo ministro da Educação, a proposta de “consenso”?
Wania – Eu não vou defender o Luiz Alberto, mas é mesmo um absurdo retirá-lo da reunião. Não é possível esquecer que, neste caso, a Bahia com todos os seus problemas tem contas nas suas duas maiores instituições ´públicas de ensino superior – UFBA e UNEB – como é que um representante deste estado fica de fora?
Afropress – Você considera, então, um equívoco a postura assumida pela Educafro?
Wania – O Frei está errado, a Educafro está errada e não vamos nos esquecer de um fato importante: por todo o país, diversos grupos, têm discutido novas formas de ingresso nas universidades públicas e esses grupos devem, sim, ter o direito de se manifestar. O Frei não tem o direito de fazer negociações dessa natureza e, finalmente, não esquecer que ele sempre quis o Prouni, quis o Prouni para manter acalmados os estudantes de pré-vestibular comunitários. Isso ele não fala, também não pergunta ao MEC quanto é que está custando o Prouni e deveria, deveria saber como é que os nossos recursos estão sendo usados para manter brancos sem dinheiro a ampliar as diferença dos negros sem dinheiro.
Em tempo: os docentes nas universidades públicas totalizam 88 mil pessoas, são essas pessoas que elegem reitores da Andifes – nós éramos em 2000 – 76 milhões de pessoas – Está claro que a relação é positiva para nós, sem contar o fato de sermos nós, o público pagante desse pessoal.

Da Redacao