1 – Fale um pouco da sua carreira e sua trajetória como cartunista? Como surgiu o interesse em desenhar, desde quando e como começou sua militância mais engajada, usando como instrumento o cartum?
Maurício Pestana – Comecei a desenhar profissionalmente no inicio dos anos 80, primeiro para jornais de bairro, depois no Pasquim e paralelo a tudo isso fui publicando desenhos em boletins do Movimento Negro. O primeiro foi de um boletim criado pelo grupo negro da PUC. Eu tinha uns 17 para 18 anos, nunca fiz parte de um grupo específico do Movimento Negro, sempre atuei de forma independente ajudando e prestando serviços com meus cartuns, cartilhas, cartazes etc., para os mais diferentes grupos e tendências do movimento, que vão desde trabalhos para o Estado até as organizações não governamentais do Brasil e do exterior. Sempre que a palavra de ordem foi o combate ao racismo e a inclusão do negro, eu estive participando e desenhando nesses quase 25 anos de carreira que dão um total de 42 cartilhas e 12 livros publicados.
2- Como artista e maior cartunistas negro do país, como você se relaciona com os Movimentos e com as instituições? Você não acha que muitas das organizações que utilizam seu trabalho, têm uma visão apenas instrumental dele?
Pestana – O primeiro trabalho que fiz de repercussão nacional foi a cartilha “O negro no Mercado de Trabalho” com o já falecido historiador e amigo Clovis Moura isso há exatos 20 anos. A cartilha, que trazia um pouco mais de uma dezena de desenhos demonstrando com humor como de dava a discriminação racial no Brasil, foi um marco, primeiro por ter sido publicada dentro de um órgão do Estado, talvez o primeiro a reconhecer o racismo após a ditadura. Foi no governo Montoro. Esses desenhos acabaram sendo reproduzidos por várias entidades de todo país pois viam neles uma forma de ilustrar, dando imagem aquilo que tanto falávamos mas que sempre pareceu invisível. A partir daí passei a produzir várias cartilhas para as mais diversas entidades, por ser um trabalho único tive sempre a preocupação de não vincular minha obra a um único partido ou tendência fazendo com que ele estivesse a serviço da causa e não de um partido ou de um governo.
Hoje, olhando para trás, sinto que essa missão e proposta foi alcançada pois você verá trabalhos meus que vão desde uma cartilha publicada pela secretaria de combate ao racimo do PT sobre a importância do voto negro, até cartilhas e cartazes sobre a questão racial publicadas pelo governo do Estado de São Paulo passando pelo Pc do B, prefeituras, campanhas políticas etc. Todos com enfoque na questão racial e no combate ao racismo.
É claro que algumas pessoas não aceitam artista ou ativista que seja independente mas… paciência. Acho que meu trabalho realmente sempre foi usado como um instrumento de denúncia e combate ao racismo.
3  – Qual o balanço que você faz deste ano de 2.005 e quais as perspectivas para 2006 do ponto de vista da luta contra o racismo e a desigualdade racial?
Pestana – Foi um ano extremamente importante em vários aspectos, político, social etc. Eu diria que um ano que entrará para a história como um divisor de águas pelas denúncias provocadas principalmente na esfera política.
Na luta contra o racismo acho que tivemos avanços e decepções. Acho que a abertura do Museu Afro-brasileiro e o lançamento da TV da Gente foram os pontos altos do ano. Acredito que a realização de duas Marchas nos 310 anos de Zumbi foi o ponto baixo. Com relação a 2006 tenho grandes expectativas. Acho que um ano eleitoral sempre é muito importante para refletirmos e cobrarmos dos nossos governadores as promessas de campanhas.
4 – Você participou da Marcha Zumbi + 10 no dia 16 de Novembro em Brasília. Qual o sentido da Marcha, como você viu a divisão de várias correntes que organizaram outra Marcha no 22 de Novembro? E qual o saldo que você destaca da Marcha do dia 16/11, da qual participou?
Pestana – A análise que faço hoje do movimento que culminou na divisão, em duas Marchas não difere em nada do que já fazia anteriormente e até demonstrei isso em um cartum. No aspecto político saímos todos perdendo pois isso mostrou uma divisão que é tão apregoada pelos racistas deste país entre nós negros. Acredito, porém, que, apesar de tudo, houve também um aspecto positivo que foi a obrigatoriedade do posicionamento de vários companheiros e companheiras que durante anos com o escudo da bandeira anti-racismo esconderam suas verdadeiras prioridades que eram a defesa do emprego, do cargo, do apoio, do financiamento etc. Enfim, interesses que, infelizmente, muitas vezes estiveram acima da luta contra o racismo.
Todas as discussões que giraram em torno das duas Marchas colocaram essas feridas muito pouco discutidas entre nós à publico. O lado triste de tudo isso foi que uma discussão que poderia ser tão rica como essa para toda a militância acabou em fofocas, mentiras e ataques pessoais que nada contribuem para o nosso avanço.
Optei pela Marcha do dia 16 por considerar que ela reunia o maior numero de lideranças genuinamente do Movimento Negro. Um dos aspectos da marcha que mais me chamou atenção é que embora houvesse lideranças de outros movimentos como do MST, eu não vi uma só bandeira ou uma só faixa que não fosse de entidades do Movimento Negro. Apesar de entender a importância dos outros movimentos e até de alguns partidos em alguns momentos para nossa luta acredito que aquele era um momento de reflexão e autocrítica exclusivamente nosso. E isso foi demonstrado.
 
5 – A que você atribui a imensa dificuldade do Movimento Negro, através de suas lideranças mais expressivas, se unirem em torno de um Programa de Lutas e reivindicações que seja capaz de dar conta da realidade em que vive a população negra discriminada de norte a sul do país?
Pestana – Esta é uma pergunta complexa que exigiria uma analise profunda sobretudo da forma como vem se organizando a sociedade brasileira e o Movimento Negro nos últimos 25 anos no pós-ditadura militar.
Acredito que a divisão do Movimento Negro em partidos políticos diferentes e divergentes colaboram significantemente para a nossa divisão (que teve início lá atrás na reforma partidária). Algumas ações do próprio Estado e de alguns companheiros dentro do Estado dificultam a pauta de uma reivindicação que em muitas vezes questionam ação racista do próprio Estado.
Em terceiro lugar, aspectos econômicos, num país que tem a pior distribuição de renda do planeta em que nós negros somos os mais atingidos, há sim, um forte impacto inclusive na articulação de pensar uma pauta em comum uma vez que a prioridade quase sempre é a sobrevivência, econômica e política. Dentro deste caos o racismo impera soberano e ouvimos com freqüência frases racistas de como somos divididos, nunca atentamos para esse e outros aspectos inclusive culturais que também colaboram uma vez que somos o 2˚ maior país negro do mundo e é como se falássemos que vários países europeus não se entendem o que é verdade mais em nenhum momento ouvimos falar aqueles brancos não se entendem. Mas, fazendo uma autocrítica realmente é triste saber que não temos um programa único de reivindicação e de pauta para a nossa luta.
 
6 – O que você destacaria de novo hoje no Movimento Negro? Quais as diferentes da geração de 70 para a de hoje?
Pestana – Como já disse anteriormente comecei a atuar ativamente no Movimento Negro no início dos anos 80. Várias lideranças daquela época vinham dos anos 70, com um entusiasmo de quem havia enfrentado a ditadura militar que dominava o Estado brasileiro. Eram pessoas todas mais velhas que eu, tinham sonhos, discursos, projetos de mudanças do Estado, eram coisas que para a época pareciam utópicas.
Hoje, algumas dessas lideranças ocupam cargos dentro do Estado, salvo exceções percebo que muitas se perderam dentro da burocracia (não tiro os méritos do Estado brasileiro racista e por muitas vezes perverso até com quem está lá dentro para combater o racismo) mas confesso que dá um pouco de tristeza ao conversar com pessoas que eram referencias para minha geração e hoje não conseguem enxergar além dos muros palacianos do Estado.
Por outro lado, vejo com entusiasmo a forte liderança jovem vinda do movimento das periferias das grandes cidades, vejo apreensivo o surgimento de lideranças com projetos econômicos e empresarial sob o escudo da luta contra o racismo o que me faz lembrar a primeira vez que estive nos Estados Unidos, onde conversei com lideranças acadêmicas em Washington com um discurso em defesa das ações afirmativas que estavam balançando por lá, com lideranças empresariais em Atlanta que estavam preocupadas com o consumo e negócios entre negros e com lideranças jovens, em Los Angeles, que discutiam a pobreza na periferia recentemente incendiada na época num dos maiores motins daquele país.
Mas, lá eu percebia uma coisa em comum: a luta contra o racismo estava acima das diferenças de atuações e ideológicas. Não consigo ver isso por aqui.
7 – Como você vê o papel dos intelectuais negros e qual a responsabilidade que eles têm, na sua opinião, de lutar para a unidade do povo negro, da academia à periferia?
Pestana – Essa é daquelas perguntas que, para responder, é preciso compreender um pouco da cultura elitista colonialista e racista deste país, para chegarmos a nossa intelectualidade, que tem mudado ultimamente mas falta muito para chegar próximo ao ideal.
Primeiro temos que lembrar que até muito recentemente , inicio dos anos 60, mais da metade desse país viviam no campo e era formada por analfabetos. Aí, quem sabia ler aqui era rei e com o curso universitário então era Deus!!! Uma sociedade como essa criou dois mundos com linguagens e necessidades diferentes. É óbvio que a maioria dos que não tinham acesso a academia eram negros e o ingresso dos poucos negros a academia fizeram com que muitos deles tivessem que obrigatoriamente se adaptar a linguagem e as necessidades da academia branca, isso geraria um grande conflito pois uma boa parte da linguagem anti-racista é muitas vezes complexa e de difícil acesso fazendo com que a grande massa negra das periferias não entenda e nem tome contato com a produção acadêmica da nossa luta.
Quem hoje consegue fazer esse trabalho de conscientização perfeitamente é o movimento hip hop, que com uma linguagem simples, de fácil acesso e sem vícios consegue aglutinar a juventude negra para nossa luta. Embora não desmereça a importância do trabalho intelectual na qual eu mesmo sou fruto e utilizo para expor minhas idéias, porém sempre tive a preocupação de utilizar uma linguagem de fácil acessibilidade para minha raça, da minha comunidade.
Falo isso, mas é bom lembrar que hoje existem vários intelectuais negros com essa compreensão, dentre eles, destacaria João Jorge, Sueli Carneiro, professora Palmira e muitos outros que continuam com a mesma linguagem escrita e falada de antes da Academia.
9 – O que fez com que os norte-americanos passassem a se interessar pelo seu trabalho como cartunista?
Pestana – O primeiro contato que eles tiveram com meu trabalho foi através do livro “Manual de Sobrevivência do Negro no Brasil”, livro que fiz em parceria com também já falecido amigo e poeta Arnaldo Xavier editado pela editora Sampa e pelo Geledes – Instituto da Mulher Negra. Isso foi no ano de 1993. O livro que era bilíngüe – português e inglês – foi levado para os Estados Unidos pelo Geledes. Meses depois recebi o convite da Biblioteca do Congresso Americano para o arquivamento do material naquela que é a uma das maiores bibliotecas do mundo.
Depois veio o convite para participar de uma exposição coletiva no Ana Costian Museum, em Washington, e, em 1996, o convite para um intercâmbio cultural com arte educadores, cartunistas, editores e ativistas negros que passaram a disseminar e estudar meu trabalho.
Ano passado em viagem novamente àquele país, recebi um convite para dar uma aula em uma grande universidade de Washington (na área de artes), exatamente para ensinar essas técnicas de trabalhar o cartum através de cartilhas com a finalidade educacional no combate ao racismo.
Tenho estudado a proposta mais ainda não foi o bastante para me tirar daqui. Apesar das dificuldades, gosto do trabalho que desenvolvo no Brasil. Este ano esta sendo preparada um exposição individual lá com mais de 60 desenhos meus abordando a questão racial. Ao que me consta será a maior exposição de um cartunista brasileiro fora do país, mas o verdadeiro interesse acredito que seja porque várias das situações que descrevo sejam comuns para os dois paises.
 
10 – Quais as perspectivas que você vê para 2.006? Quais são os planos de trabalho?
Pestana – Inicialmente estarei lançando dois materiais confeccionados no final do ano passado com significado muito especial. O 1˚ é um jogo para crianças que será distribuído nas escolas municipais de São Paulo sobre ações afirmativas. Trata de um jogo de educação infantil, no qual as crianças vão aprendendo sobre ações afirmativas, cotas, com ênfase nas universidades que adotam ações Afirmativas. Para mim, foi uma das coisas mais importantes que fiz nos últimos anos. Será lançado pela Prefeitura de São Paulo e estou aguardando com grande expectativa.
Outro trabalho, que também julgo como um dos mais importantes foi à produção de arte para uma cartilha contando a história do negro no Rio Grande do Sul. Fui contratado para a realização desta produção pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional. O lançamento será no dia 7 de fevereiro em Porto Alegre com a presença do Ministro Gilberto Gil, que tem dado muito apoio ao meu trabalho inclusive abriu uma exposição minha na sede do Ministério da cultura organizado pela Fundação Cultural Palmares.
Aliás, devo dizer que o apoio da Fundação Cultural Palmares, através do diretor Zulu Araújo, tem sido primordial em vários projetos sociais nos quais tenho estado envolvido, como curso de cartum para jovens da periferia de Brasília e de Salvador que realizei ano passado. A fundação organizou também o lançamento de meu mais recente livro “Racista, Eu!? De Jeito Nenhum”, sobre a violência policial – o lançamento aconteceu em Salvador; também apoiou uma cartilha que produzi sobre ações afirmativas e tem apoiado outros projetos.
Ainda este ano estarei lançando em Belo Horizonte o livro “Violência Histórica”, adquirido pela Prefeitura municipal de BH. Este livro foi lançado no Brasil e em Portugal para o mercado europeu e vende muito por lá, e a partir de agora estará nas escolas municipais de Belo Horizonte. É um livro que conta a história do negro no Brasil em desenhos de quadrinhos.
Aqui em São Paulo continuarei com um projeto embasado na lei 10.639/3, levando a exposição de meus trabalhos para cidades do interior através da Assessoria de Gênero e Raça da Secretaria da Cultura.
Estou produzindo também uma cartilha sobre a diversidade na cidade de São Paulo para a Secretaria do Trabalho e pretendo ainda arrumar um apoiador para uma cartilha que produzi sobre a anemia falciforme. Tem também a exposição nos Estados Unidos e várias outras atividades.
11 – Faça os comentários que julgar pertinentes.
Pestana – Observando e acompanhando as discussões sobre a questão racial no Brasil, sinto a falta de uma discussão mais profunda de temas referentes à melhoria do nosso dia-a-dia.
Exemplo: Gostaria de estar vendo hoje a discussão de qual será o nosso papel nas próximas eleições? Quantos deputados federais negros cada Estado brasileiro pode eleger e qual a estratégia para a eleição? Quantos são e qual foi o papel dos nossos deputados negros em Brasília? Quantos projetos de interesse para a comunidade negra os nossos deputados apresentaram nesses 4 anos a nível estadual e federal? Quantas emendas orçamentárias para a comunidade negra foram apresentadas se é que foram? E a Presidência da República? Haverá algum candidato ou vice negro?
Somos praticamente a metade dos eleitores deste país, temas como estes deveriam ser corriqueiros nas discussões.
12 – Como as pessoas podem ter acesso ao seu trabalho, seus livros ou contatá-lo para palestras?
Pestana – Através do site www.mauriciopestana.com.br ou do email [email protected]