Diz ela que a história que contamos de Zumbi, é ´idealizada´ e muito distinta da realidade, no entender dela, nem tão edificante. Ora, estamos homenageando um guerreiro e não beatificando um santo da Apostólica Romana. Por seu lado, vejamos a história de ´Veja´, nos tempos recentes, portanto nada santificada nem idealizada, mas muito, muito real.
A revista´Veja´ é o principal veículo da Editora Abril, com mais de um milhão de exemplares semanais, 4 milhões de eleitores classe ´A/B/C´, cerca de 60% do mercado e do faturamento em publicidade. Esse poderio agora apontado a Zumbi, não se trata de mera questão jornalística, mas questão nacional e política.
Conforme noticiário econômico desde 2006, a Editora Abril tem parte, senão a maioria, do capital adquirido por empresários brancos da África do Sul através do grupo empresarial NASPERS – NASIONALES PERS (Imprensa Nacional). Sabemos que na África do Sul, até 1989 vigia o regime do ´apartheid´ (apartação) aquele em que o Estado foi edificado em 1948 com base em leis raciais separando e conferindo direitos e privilégios baseados na ´raça´ dos sul-africanos.
Aos brancos eram conferidos todos os privilégios da cidadania e usufruto da riqueza nacional. Aos pretos, eram restringidos direitos, até mesmo sobre as terras tradicionais das diversas nações que lhes foram interditadas.
Neste quadrante é que entra a questão política da presença de capital estrangeiro em veículos de comunicação, o que era vedado pela Constituição de 1988. Foi em 2002, no final do governo FHC que isso foi alterado. Até a aprovação da emenda constitucional 222/2002, a CF/88 não permitia a participação de capital estrangeiro em empresa brasileira de comunicação. Com a mudança na Constituição, foi permitida a entrada de até 30% de capital externo no controle acionário dos veículos.
O fato de ser o grupo NASPERS sul-africano não autorizaria ilações da matéria tendenciosa contra Zumbi, não fossem os fatos históricos nada idealizadas que a Naspers – Nationale Pers, criada em 1915, ostenta: “esteve durante décadas estreitamente vinculada ao comando do Partido Nacional, a organização partidária das elites africâneres que legalizou o detestável e criminoso regime do apartheid no pós-Segunda Guerra Mundial (1948).” (“Caros Amigos”, Renato Pompeu, no artigo “A Abril e o apartheid”, publicado em agosto de 2006). Seu papel no regime segregacionista foi de tal monta que, relata o escritor, dos seus quadros “saíram os três primeiros-ministros do apartheid”.
O diretor do seu principal jornal, o Die Burger, D.F. Malan, tornou-se o chefe do governo, de 1948 a 1954, foi quem tornou lei a segregação racial. “Já os líderes do Partido Nacional H.F. Verwoerd e P.W. Botha participaram do Conselho de Administração da Naspers”.
Sem ´idealizar´ a história, vejamos o que de fato fizeram os governos oriundos da NASPERS. Através do Partido Nacional, assumiu o poder em 1948 sob a liderança de Daniel François Malan institucionalizou o sistema jurídico racista e manteve-o até 1994, finalmente derrotado pelo CNA, o partido liderado por Nelson Mandela.
Com Verwoerd ´somente´ ocorreram o massacre de Sharpeville (1960), a proibição do CNA e a condenação de Mandela (1962) à prisão perpétua e o assassinato de Stevo Biko além de, nesse meio de tempo, em 16 de Julho de 1976 o ´Levante de Soweto´. Neste dia a cidadela de Soweto explodia em protestos, a reação do governo fez mais de 600 mortos, dando início a nova era de luta, símbolo de lutas que se transformaram em atos da revolução sul- africana.
Já P. W. Botha, o último da NASPERS, sustentou o apartheid a ferro e fogo, de 1978 a 1989. Invadiu Angola, Zâmbia, Botswuana e Zimbábue (então Rodésia) onde fez mais de 30 mil mortos e, para impor o potencial bélico, desenvolveu a bomba atômica em colaboração com Israel. Esse regime cruel e desumano, acabou somente em 1994, forçado, por ativistas contra o racismo do mundo inteiro, libertou Mandela após uma renhida luta de e do bloqueio internacional ao sistema do ´apartheid´ sob comando da ONU, que não reconhecia validade nas leis e no regime racista.
Quem estuda a evolução das leis raciais na África do Sul, sob os partidários da NASPERS, fica pasmo, diante da escalada crescente, tal como ocorrerá entre nós, se aprovados os projetos de leis raciais em trâmite no Congresso Nacional e que seria replicado em milhares de leis em todos os Estados e municípios do Brasil. A primeira imposta pelo Partido Nacional foi a Lei do Registo da População em 1950.
Esta lei obrigava todos os cidadãos a serem registados como pretos, brancos ou mestiços. Era a declinação do pertencimento racial, exigência legal, para usufruto de direitos. (em universidades brasileiras já estão fazendo esse gravíssimo ato de lesa-humanidade). Culminando com Lei da Nacionalidade para os Cidadãos Pretos das ´Homelands´ de 1971. Com esta lei, os pretos, habitantes das “homelands” deixavam de ser cidadãos da África do Sul e, portanto, perdiam todos os direitos de cidadania. Essa lei mobilizou a juventude tendo à frente Stevo Biko, assassinado pela polícia em 1974, também, certamente um herói de africanos ´idealizado´, ao vesgo olhar da ´Veja´.
A NASPERS jamais se desculpou dessa história contra o povo sul-africano. Em 1997, houve apenas um pedido formal de desculpas feito por 127 jornalistas do grupo e endereçado à Comissão da Verdade e da Reconciliação encabeçada pelo arcebispo Desmond Tutu. Era o equivalente a um voluntário pedido de ´perdão´ concedido generosamente pelo governo de Mandela visando curar feridas, a quem se declarasse arrependido dos crimes raciais, deixando de responder ao processo criminal. Esse pedido foi individual das pessoas, jamais uma autocrítica da NASPERS que o sul-africano ainda espera.
Ora, para nós brasileiros, o movimento negro foi resgatar na história e entregar ao orgulho da nação, tão pobre de atos heróicos, Zumbi e agora João Cândido que representarão no futuro, certamente idealizados, mais que heróis de afro-descendentes, serão Heróis brasileiros. Zumbi, o primeiro deles. Inspirador de Cândido.
O que ´Veja´ e os africaner´s jamais compreenderão, por razões óbvias, é que somente pela postura heróica é que Portugal promoveu uma a guerra ao Quilombo de Palmares, com a ordem expressa para a execução e a exposição pública da cabeça do líder Zumbi, ocorrido em 1.695. O que deveria ser exemplar reprimenda, é certamente, uma prova qualificada da imortalidade, prerrogativa reservada a heróis.
Também Tiradentes foi executado e a cabeça exposta ao público, em 1.792, um século depois. Evidente que o vencedor apaga registros existentes, porém, os historiadores comprovam, sem sobra de dúvidas, que foi o líder máximo de Palmares e que o Quilombo somente foi atacado em razão da negativa de seu líder seguir obediente e com relações amistosas com os prepostos da coroa portuguesa, conforme acordado anteriormente. Daí o significado do heroísmo: em nome da independência e autonomia de seu povo ousou desafiar o poder constituído.
A própria matéria de ´Veja´ ilustra com Tiradentes elucidando que qualquer figura histórica é ´idealizada´, tanto a de Zumbi quanto a de Tiradentes. O que não retira o caráter heróico diante da realidade em que se travou a luta. Naquelas circunstâncias, em que a cooptação da alforria induzia o liberto a legitimar o sistema, conforme Machado de Assis noticia em ´Memórias Póstumas´ em que a submissão significava a sobrevivência, mesmo que precária, já é suficiente para o reconhecimento histórico exigido e conferido a Zumbi.
Afinal, devemos ou não reconhecer no quilombismo como resistência enfraquecedora de um sistema que violava a dignidade humana? Como não é a primeira vez que ´Veja´ demonstra o atual viés racista, questionando a legitimidade dos afro-brasileiros saudarem sua história de resistência à escravidão e até mesmo o direito de decidirem eleições do governo de nosso país, conforme aquela edição de outubro de 2006 em que a revista estampou na capa a foto de uma mulher negra, título de eleitor na mão e a manchete: “Ela pode decidir a eleição”, uma situação impensável na África do Sul do apartheid.
Nas circunstâncias históricas, nada autoriza a conclusões que minimizem o mal combatido por Zumbi ou que justifiquem a violência e crime de lesa a humanidade que foi a escravatura africana então vigente: “O objetivo desses estudos não é colocar em xeque a figura simbólica de Zumbi, mas traçar um quadro realista, documentado, do homem e de seu tempo.”, argumenta o autor da matéria na ´Veja´.
Ora é fato inconteste que o Brasil foi o maior importador de escravos, algo como dez vezes mais que a América do Norte, e que, portanto, desde o ciclo do pau-brasil, do açúcar, da mineração, da borracha e do café que as riquezas foram produzidas com a apropriação do braço – e da vida – de africanos e descendentes. É fato inconteste que a alforria somente foi largamente utilizada no Brasil como mecanismo de controle e formadora de uma classe intermediária como instrumento desestimulador do quilombismo.
É evidente que as relações políticas de Palmares eram complexas, explicam os historiadores, e envolvia acordos pois não subsistiria se fosse em total isolamento o que não retira o heroísmo da resistência ao regime. Bem ao contrário de ´Veja-Naspers´, os atos heróicos de Zumbi, devam sim ser idealizados.
Por fim, ao contrário da revista, devemos sim comungar de forma incondicional com Rui para quem, em 1892, ´a escravidão foi uma vergonhosa nódoa que jamais será apagada da nossa história´. Também com a denúncia de Joaquim Nabuco em ´O Abolicionismo´ (1883) que a escravidão degradava tanto o escravo quanto o senhor.
E mais ainda, devemos ficar indignados com a própria história da escravidão e do apartheid, aquela que consta na história da NASPERS, tal como Charles Darwin ficou, em passagem pela Bahia nos anos 1.850, recusou-se a permanecer naquele lugar e relatou jamais ter visto maior tragédia humana: nunca mais hei de pisar em terras com tamanha degradação humana. Darwin foi feliz, pois não viveu para conhecer o apartheid patrocinado por dirigentes da NAESPERS na África do Sul.
O resto é história, a de Zumbi, Tiradentes, João Cândido, Malcon X, Martin Luther King, Steve Biko, ou a futura de Barack Obama, serão todas idealizadas pelo tempo. A de ´Veja/Naspers´, se realiza na fria constatação da atualidade: se esforçando para continuarem racialistas. O resto é história, idealizada ou não.
Zumbi: primeiro herói brasileiro. Veja, quer executá-lo, de novo?

José Roberto F. Militão